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NAMORAR, FICAR E PERMANECER
Mario Prata
O brasileiro é antes de tudo um infiel.
Poderia ter dito Euclides da Cunha, que conheceu na pele o
problema. E nas costas. Mas nem todos, diriam os mais jovens. Correto.
Mas eu estou a me referir à minha geração, dos meus pais e meus avós. Não
é preciso deitar em nenhum divã de psicanalista para entender o que aconteceu
com a minha turma.
Para nós, no começo dos 60, amor e
sexo eram duas coisas completamente distintas. As namoradas não
"deixavam" nada. Não se "ficava" naquele tempo,
imagine! A gente depois de uns 15 dias (e de muita
conversa) pegava na mão. Beijo na boca, só uns seis meses depois. E
ficava nisso. Um ou outro conseguia
um bico por cima do ban-lon. Sexo, jamais... Impossível!!!! Todo mundo
tinha sua namorada (muitos se casaram com elas).
Depois do namoro íamos para a
"zona". Lá não tinha amor, tinha sexo, com descalcificadas
prostitutas
interioranas. E aqui na capital acontecia o mesmo. Sexo com amor não
existia. Portanto, para nós, a
divisão amor/sexo era absolutamente normal. Para nós, até então, uma
coisa nada tinha a ver com a outra.
A primeira vez que fiz amor e sexo
junto, foi um desastre. A namorada sentou-se na cama e me disse:
- Não é nada disso!
E falou de coisas que eu nunca havia
imaginado.
Carinho, por exemplo, nunca tinha feito
carinho numa profissional do amor, é claro. Essa namorada me
ensinou a fazer sexo com amor. Foi uma grande descoberta para mim. Sei
até o dia: 1º de maio de 68 (eu tinha 22 anos), entre uma barricada e outra lá
na USP. Portanto, para a minha geração, no início, traía-se naturalmente,
sem culpa. Hoje, com um pouco de culpa, com certo remorso.
Se na vida dos meus pais e avós eram
normal a infidelidade e as amantes fixas ou eventuais (as esposas sempre sabiam
e fingiam que não era com elas), com a nova geração a história é outra.
A maior invenção dos anos 90, foi o
"ficar". Que inveja!!! Fica-se com uma hoje, com outra amanhã e
ninguém está enganando ninguém. Culpa? Nem pensar. Sábia essa geração.
Ainda não entendi por que não se libera esse negócio de ficar para nós também,
mais velhos. Acabaria a infidelidade.
- "Você me traiu?
-"Não, só fiquei".
Ou seja, a novíssima geração continua
infiel. Só que deram um jeito na jogada. Ficar não é pecado, não
está nos mandamentos nem de Deus e nem da igreja. Mas se eu ficar, como
fica a minha namorada?
Eu tento entender os limites do ficar,
mas sinto que a compreensão foge aos meus limites de infiel
salesiano. Eu pergunto aos mais jovens, mas ficar, fica até que ponto?
Está me entendendo? Tem ficada
completa? Ou, se for completa, não é mais ficar? E eles me dizem que,
às vezes, ficar pode ser completo.
E não é traição. Pinta, entende? E se pinta, rola. No dia seguinte,
imagino eu, nem contam para o melhor
amigo. Onde já se viu?
Só que, com gente mais velha, elas não
ficam. E não é por causa da idade, não. É que elas sabem que nós
não sabemos ficar. Quando um cara da minha idade consegue ficar com
uma, quer ficar mais, quer no
outro dia de novo. Aí não é mais ficar, já entra compromisso, pai e
mãe no meio. Ficar pode. Ficar mais de uma vez, não. Tá pensando o quê? Casa
da sogra, como se diria no meu tempo? Definitivamente eu não sei ficar. Fico
devendo...
Ou seja, esse negócio de ficar pra cá,
ficar pra lá, completo ou incompleto, é só entre eles. Há de se
entender o espirito da coisa. E a minha geração tá muito mais para a
carne que para o espirito em relação à ficagem.
Já namorou fulana? Não, mas fiquei.
Que coisa normal!
Outro dia, encontrei com uma amiga da
minha geração e ela me disse com a maior naturalidade que a filha dela tinha
ficado com o meu filho (faz tempo, Fefa). Só que quando eu quis tirar um sarro
com ela (que é como a gente "ficava", na nossa época, há uns 30
anos), nem pensar! Ficou me devendo. E agora vem pra cima de mim com essa
normalidade toda. Será que ela quer ficar comigo? Agora? A gente quase avô?
E o mais doido é que há 30 anos a
gente cantava no ouvido das meninas:
- "Fica comigo esta noite... que não
te arrependerás!!!"...
E nenhuma delas entendeu o que eu queria
dizer.
Resumindo: Quem ficou, ficou. Quem não
ficou, não fica mais!
E, como já dizia Zilda Mayo, atriz de
pornochanchada, numa célebre entrevista para a revista HOMEM:
"amar, não é só colocar lá dentro".
Vou ficando por aqui...